cap06

O Veneno na Rede
(A Profanação Digital) 

“O desejo do homem é o desejo do Outro: não se deseja o objeto, mas o olhar que o contempla.”
— Jacques Lacan
(O Seminário, Livro 11: “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, 1964)

A xícara de porcelana branca repousava intacta entre os dois homens. O vapor do café catuaí já havia se dissipado no ar-condicionado da cafeteria, mas o clima na mesa era denso, impregnado por uma expectativa quase palpável. Edgar mantinha os olhos fixos na janela, mas a sua mente navegava por memórias internas.

Otto não o apressou. Como psicanalista clínico, ele sabia que o silêncio de Edgar não era um vazio, mas o tempo necessário para que a arquitetura do desejo fosse reconstruída em detalhes.

— Foram duas noites, Otto — começou Edgar, cortando o murmúrio distante das conversas. — Passamos quarenta e oito horas inteiras imersos num transe silencioso. Depois daqueles quarenta e sete minutos nesta mesma mesa, quando ela fugiu para o carro do marido. Eu não conseguia concentrar na agência, não conseguia dormir. E eu sabia que a mente dela também não descansava. A atração já era inevitável.

Otto ajeitou a armação dos óculos, apoiando os antebraços sobre a mesa.

— Quarenta e oito horas fermentando a ideia — pontuou Otto — O tempo perfeito para o tesão virar obsessão. E o que aconteceu depois, Edgar? 

Edgar colocou a mão no bolso. Com um gesto calmo, quase solene, puxou o próprio celular e o pousou sobre a mesa, exatamente ao lado do café frio. Desbloqueou a tela e deslizou o polegar até o histórico de conversas.

— Você pode pensar que o luto poetiza as lembranças, Doutor. Mas a verdade é que a história permanece escrita aqui — disse Edgar, inclinando o aparelho para que Otto pudesse ver. — Olhe para este celular. A conversa continua intacta.

Otto inclinou o corpo ligeiramente para a frente. O olhar do psicanalista percorreu a tela iluminada, registrando os horários e o fluxo elegante das mensagens trocadas na penumbra.

— Foi na madrugada de uma quinta-feira, passava de uma da manhã — prosseguiu Edgar, resgatando a atmosfera daquela noite. — O visor do meu celular acendeu no criado-mudo. Uma notificação de um número sem nome e sem foto. Apenas uma palavra no escuro:

** Giovanna:** Oi…

Edgar fez uma pausa breve, os olhos percorrendo o texto gravado no vidro.

— Eu sabia exatamente de quem se tratava. Mas não a pressionei. Respondi com uma presença calma, acolhendo o movimento dela:

** Edgar:** Eu sabia que você viria. Como conseguiu meu número, Giovanna?

** Giovanna:** Peguei no celular da Patrícia na academia, enquanto ela estava no banho… Eu sei que não devia ter feito isso. Me desculpa.

** Edgar:** Você não precisa pedir desculpas.

** Giovanna:** Eu queria me explicar pela forma como saí apressada na terça-feira. Pareceu que eu entrei em pânico. Fiquei envergonhada pelo meu comportamento.

** Edgar:** Você não pareceu em pânico, Giovanna. Pareceu apenas alguém que sentiu a terra tremer sob os pés pela primeira vez e precisou de um tempo para respirar. Não há vergonha nisso.

** Giovanna:** O problema é que eu não estou conseguindo respirar desde aquele dia, Edgar. Há duas noites eu não durmo. O tédio desta casa está me consumindo.

— O sintoma já havia encontrado morada no corpo dela — observou Otto, os olhos acompanhando a leitura na tela. — A insônia é a recusa do inconsciente em se afastar daquilo que o desperta.

— Ela tentou buscar um refúgio racional — continuou Edgar — Mandou a pergunta que vinha cultivando em segredo desde o nosso café:

** Giovanna:** Posso te fazer uma pergunta sincera? Por que a Patrícia beijou a sua mão daquele jeito na mesa? O que significa aquele gesto? Eu repeti o gesto mas receio que exista algo muito profundo por trás. 

** Edgar:** A Patrícia beijou a minha mão porque descobriu a paz profunda que existe em confiar e se entregar por inteiro, Giovanna. Uma serenidade que você ainda não conhece, mas que já consegue sentir no ar.

** Giovanna:** Você fala com tanta certeza , rsrs

** Edgar:** Porque eu vejo onde o seu pensamento está agora. Você está no meu celular à uma e vinte e sete da manhã buscando essa mesma resposta. Onde está o seu marido, Giovanna?

Edgar fez uma pausa reflexiva. O olhar de Otto permanecia atento, absorvendo a mecânica sedutora e psicológica da abordagem. — A resposta dela veio carregada de uma vulnerabilidade profunda — disse Edgar. — Ela precisou expor a própria solidão para que eu pudesse acolher o desejo dela.

** Giovanna:** Dormindo ao meu lado. Feito uma pedra.

** Edgar:** E ele te deu o carinho e a presença que você precisava antes de adormecer?

** Giovanna:** Ele me procurou assim que deitamos… Foi algo puramente mecânico. Três minutos, tereminou rápido, nem olhou nos meus olhos, virou para o lado e dormiu. Me deixou aqui, acordada, fula da vida e com a sensação de estar completamente sozinha.

** Edgar:** Que desperdício tragicômico, Giovanna. Ter uma mulher extraordinária e sensível ao lado e não saber como tocá-la… Ele te deu um gesto apressado, mas deixou a sua alma em chamas. Você não merece terminar a noite acorrentada a essa frustração.

** Giovanna:** E o que eu posso fazer? É a minha realidade…

** Edgar:** A sua realidade é a que você escolhe sentir agora. Você não precisa ficar refém do descuido dele. Diga-me… o que você está vestindo deitada aí no escuro?

— O contraste entre o descuido do parceiro e a atenção absoluta do sedutor — analisou Otto, fascinado pela condução. — Você apenas ofereceu a escuta que a pele dela pedia.

** Giovanna:** Uma camisola de seda clara… bem fina.

** Edgar:** E nada por baixo?

** Giovanna:** Nada… eu prefiro sentir o tecido solto na pele para dormir.

** Edgar:** A seda deslizando sobre a pele nua… uma imagem bonita, Giovanna. Como está o tecido sobre o seu corpo agora?

** Giovanna:** Tão leve… mas a minha pele tá toda arrepiada.

** Edgar:** Então preste atenção no que eu vou dizer agora, Giovanna. Permita-se sentir.

Edgar deslizou o polegar pelo visor, mostrando a Otto a mensagem mais longa que havia enviado naquela madrugada. A escrita era fluida e profundamente evocativa.

** Edgar:** Você não vai se levantar dessa cama. Não precisa ir para o banheiro se esconder como se estivesse cometendo um crime. O verdadeiro prazer nasce quando encaramos a beleza da nossa própria fome. Você vai continuar exatamente onde está, deitada de costas, a centímetros desse homem que não soube te ver.

** Edgar:** Puxe a barra dessa camisola de seda bem devagar, subindo o tecido até a altura do peito. Sinta o contraste do ar frio do quarto tocando as suas coxas nuas e a sua pele quente. Leve uma das mãos aos seus peitos. Acaricie os bicos devagar, sentindo como eles estão duros pelo desejo que despertamos um no outro sem que precisemos encostar nossos corpos.

** Edgar:** Agora, desça a outra mão. Passe o dedo pela sua buceta. Sinta como você já está molhada só de ler as minhas palavras, de imaginar o meu lábio no seu pescoço, o meu beijo na sua boca, o meu toque firme te guiando. Enfie o dedo, Giovanna. Se toque em silêncio absoluto, sentindo a sua intimidade encharcada por minha causa. Ouça a respiração profunda do seu marido ao lado, alheio a esse incêndio. Imagine a minha mão te segurando pela nuca, te puxando pra mim, enquanto você acaricia com força a sua buceta. E quando você encontrar o seu auge, quero que me diga exatamente o que passou pela sua mente no instante em que o seu corpo transbordou.

O silêncio na cafeteria era denso. Otto encarava o texto na tela, absorvendo a sofisticação daquela dominação psicológica — uma condução que não usava ameaças ou humilhações baratas.

— Um convite magnético — murmurou Otto, a voz baixa. — Você ofereceu a permissão que a consciência dela desejava, transformando a transgressão num ato de libertação.

— A verdadeira autoridade, Otto, não se impõe pelo grito; manifesta-se no convite correto — afirmou Edgar, recolhendo o telefone com serenidade e guardando-o no paletó. — Eu observei o visor sabendo que ela estava a poucos centímetros do marido, descobrindo um prazer que ele jamais seria capaz de proporcionar, guiada pelas minhas palavras.

— E como ela respondeu?

— A notificação iluminou a tela no minuto seguinte — concluiu Edgar, com o olhar perdido no horizonte. — Um texto enviado no calor do pós-gozo, misturando o choque e a rendição absoluta:

** Giovanna:** Eu gozei, meu Deus… eu tô em choque, tremendo, sem acreditar no que eu acabei de fazer do lado do meu marido. Eu me toquei, encharquei a cama e a camisola pensando no seu cheiro, na sua boca, no seu toque me puxando pela nuca… Eu nunca fiz nada parecido na minha vida, Edgar. Eu tô incrédula de como eu me entreguei a você desse jeito, de como bastou a sua palavra pra me fazer perder completamente o controle de mim.

Edgar olhou para a porcelana da xícara fria, selando o relato daquela terça-feira.

— Eu não enviei uma frase sequer de fechamento. Apenas deixei o sinal de visualizado na mensagem dela. Desliguei o aparelho e descansei. Apenas abri a porta do desejo que ela passou a vida inteira querendo atravessar, e ela caminhou por conta própria.