cap04

O Altar da Devota Original

“O sintoma necessita de um nome para existir; antes da palavra, o desejo é apenas um espetáculo sem testemunhas.”
— Jacques Lacan
(Adaptado dos “Escritos”, 1966)

Na terça-feira seguinte, Edgar não fez o teatro de sentar sozinho, encarar a janela e fingir que o mundo lá fora importava. Quando atravessou a garganta de madeira da entrada às dez da manhã em ponto, seus olhos procuraram direto a mesa atrás da divisória de cobogós. E lá estava o Dr. Otto Meireles, com seu blazer cinza impecável, o prontuário fechado sobre a madeira escura e a postura ereta de quem esperava exatamente por aquele momento.  

Edgar caminhou até a mesa e puxou a cadeira da frente sem pedir licença. O som da madeira raspando o piso ecoou seco. Ele não pediu café. Não olhou para o garçom. Apenas apoiou os braços na mesa, inclinou o corpo para a frente e encarou o psicanalista com um olhar fundo, carregado por uma semana inteira de insônia e raiva contida.  

— Você me deixou no vácuo na semana passada, doutor — soltou Edgar, a voz grave e rouca de quem passou a noite em claro. — Me deixou falando sozinho com aquela tua cara de paisagem. Mas eu passei os últimos sete dias pensando nas coisas que falou. Quer entender que porra de fantasma é esse? Então escuta essa, porque nada do que aconteceu nasceu do nada. O terreno já estava adubado.

Otto não piscou. Ajeitou a armação dos óculos com a calma de um cirurgião que vê o paciente abrir a própria ferida e fez um sinal discreto com a cabeça, concedendo o palco.

— A Patrícia chegou primeiro — começou Edgar, os dentes cravados no lábio inferior por um segundo antes de soltar a memória.  

Ao escutar aquele nome articular-se na boca de Edgar, o Dr. Otto Meireles travou por uma fração de segundo. O analista engoliu em seco, o pomo de adão subindo sob o colarinho tenso. Edgar registrou a sutil quebra de neutralidade, mas julgou ser apenas o impacto magnético de seu relato sobre o psicanalista. 

— E a Patrícia não era uma mulher comum — continuou Edgar. — Era uma força da natureza, uma vadia inteligente, com um corpo esculpido na disciplina de anos de academia. Braços definidos, pernas grossas, monumentos ao esforço. Mas o que me pegava nela era a devoção obsessiva. Ela era casada na época, doutor, o casamento dela estava uma rotina enfadonha, mas comigo ela não tinha pudor.

Otto mantinha os olhos fixos na xícara de café fria, evitando encarar as pupilas de Edgar. O analista limpou a garganta devagar, a voz saindo ligeiramente mais rouca, enquanto tentava resgatar a compostura de sua postura profissional:

— Uma… uma devoção obsessiva, você diz — repetiu Otto, forçando as palavras para fora, os lábios secos. — Prossiga, Edgar. Onde essa mulher buscava o alívio? 

— Na dor do Flogger, adorava as tiras de couro, as cordas marcando a pele clara dela, os tapas estalados na bunda até ficar marcado. Ela me pedia para meter com força, para mandar nela, para tratar ela como uma cadelinha obediente. E quanto mais eu exigia, mais ela se entregava.

Otto ouvia sem interromper, a caneta repousada ao lado da pasta, os olhos fixos na boca de Edgar. Aquelas palavras tocavam o analista; alimentavam sua atenção flutuante com o material bruto do fetiche.

— Mas a Patrícia tinha uma tara ainda mais perversa do que a própria servidão — continuou Edgar, inclinando-se de novo, batendo o indicador na madeira. — Ela sentia um prazer doentio em construir um mito sobre mim. Ela não guardava a nossa sacanagem para ela. Nas reuniões de amigas, no grupo de WhatsApp, na porra da academia em Boa Viagem… a Patrícia passava horas narrando os nossos encontros nos mínimos detalhes para o grupo dela. Ela contava como eu a amarrava, o tamanho do meu pau, a força com que eu segurava o cabelo dela, como eu mandava ela engolir tudo e o jeito que ela ficava chorando de tesão no meu tapete. Ela transformou o meu nome numa lenda urbana proibida e desejada entre aquelas mulheres sexualmente frustradas. E a principal ouvinte de toda essa sujeira, a mulher que passava as tardes engolindo cada detalhe torpe com a boca aberta… era a Giovanna, Giovanna Luna. A melhor amiga dela.

Otto recolheu as mãos sobre a mesa, entrelaçando os dedos. Pela primeira vez desde que se conheceram, a postura impecável do psicanalista oscilou. Ele piscou devagar, inclinando a cabeça de leve, os olhos brilhando por trás das lentes.

— Giovanna — murmurou Otto. A voz saiu quase inaudível. — O fantasma agora tem nome. Continue. 

Edgar soltou um riso curto e amargo, sem um pingo de humor.

— Ela não é só a porra de um fantasma, doutor. É uma praga de carne e osso que queimou a minha pele. Uma verdadeira diaba do prazer. Ela escutava arfando de tesão — disse Edgar, a voz subindo de tom. 

A Giovanna era a esposa perfeita, mãe de duas filhas, a funcionária exemplar de uma faculdade e que vivia um casamento tradicional e feliz, porém sem tesão, sem vida e sem cor. Ela já havia sido muito machucada no passado e acabou criando um comportamento de quem cuida de tudo, de quem resolve tudo. Ela ouvia os relatos da Patrícia sobre mim como quem devora uma Bíblia profana. A Patrícia encheu a cabeça da Giovanna com a minha imagem por quase um ano. Ela colonizou a mente da amiga. Quando a Giovanna finalmente me viu pessoalmente, ela não estava conhecendo um homem; ela estava diante do monstro que já habitava as gozadas secretas dela.

— E como é que a Patrícia fazia esse relato? — interveio Otto, inclinando-se ligeiramente para a frente, os olhos fixos em Edgar. — Ela não se limitava a contar histórias regadas a uma xícara de chá, imagino. 

Edgar soltou um bufo curto.

— Fofoca falada não basta para mulher frustrada, doutor. A Patrícia precisava de prova documental. A gente gravava tudo no próprio celular dela. Era ela quem pedia, quem implorava: “Grava, meu dono, grava você me comendo”. Eu pegava o telefone dela e filmava. Filmava as amarras apertando a pele, a bunda vermelha dos tapas e chicotadas, a cara dela lambendo o meu sapato, ela engolindo cada centímetro do meu pau. E no minuto em que ela saía do quarto, já jogava aquela sujeira direto no grupo fechado das amigas no WhatsApp.

Otto permaneceu em silêncio, absorvendo cada detalhe da mecânica, enquanto Edgar continuava.

— As fotos e os vídeos caíam naquele grupo como uma bomba. As amigas surtavam. Mandavam áudios chocados, choviam figurinhas, chamavam a Patrícia de vadia, de cadela, de “a mais safada e depravada do grupo”. E era exatamente disso que a Patrícia se nutria. Ela devorava aqueles elogios tortos como se fossem um troféu. Para ela, ser esculhambada pelas amigas por entregar um sexo tão baixo, tão cru e sem limite, era a prova máxima de poder. Ela se sentia superior a todas elas. Enquanto as outras amargavam casamentos mornos com maridos brochas que transavam de luz apagada no domingo, a Patrícia exibia no celular que tinha um dono de verdade, embora também fosse casada.

— Uma propaganda da própria servidão — analisou Otto, ajeitando a gola do blazer tentando manter o controle da escuta clínica. — Ela não estava expondo o sexo, Edgar. Estava exibindo o troféu. Ter um ‘Dono’ era a moeda de poder dela naquele grupo. Esfregar os vídeos e os roxos na tela do celular das amigas, era a forma que ela encontrou de se colocar no topo de uma hierarquia mórbida. E você, vaidoso como todo perverso, adorou servir de espetáculo para essa plateia particular, imagino.

— Eu era a porra do dono daquela história inteira — rosnou Edgar, encarando Otto com o maxilar trancado. — A Patrícia achava que estava no comando porque tinha a câmera e trazia a plateia. Mas ela não tinha a menor ideia do incêndio que estava acendendo no grupo. Porque quando a Giovanna pisou no meu território o controle que a Patrícia achava que tinha virou poeira.

No relógio da parede, os ponteiros avançavam implacáveis para o limite do tempo, enquanto a sombra do primeiro encontro real entre Edgar e Giovanna finalmente começava a emergir da penumbra daquela mesa.