cap05

O Templo da Repetição

“Sempre se retorna ao lugar da profanação na ilusão secreta de que o tempo possa ser paralisado.”
— Melanie Klein
(Adaptado de “Inveja e Gratidão”, 1957)

— Foi exatamente aqui, doutor — soltou Edgar, a voz mais áspera e densa. — A primeira vez que eu vi a Giovanna… foi exatamente aqui. Nesta mesma mesa. Sob este mesmo teto.

Otto travou. As pupilas do psicanalista se dilataram imperceptivelmente.

— Nesta mesa? — perguntou Otto, mantendo a voz sob rigoroso controle clínico, embora uma descarga elétrica tivesse acabado de percorrer sua espinha.

— Era uma terça-feira, dez da manhã em ponto — continuou Edgar, sem piscar. — A Patrícia armou tudo. Ela me ligou às nove dizendo que ia trazer a melhor amiga para tomar um café especial antes de irem para a academia. Mas era mentira. A Patrícia não queria tomar café. Ela queria me expor como um troféu. Queria que a Giovanna visse com os próprios olhos o homem que estava nos relatos e nos vídeos que destruíam o sono dela nas madrugadas.

Otto encostou-se lentamente na cadeira, a mente trabalhando em alta velocidade. Cada peça do comportamento de Edgar nas últimas semanas começava a se encaixar.

— A Patrícia chegou primeiro, desfilando com aquela postura ostensiva — narrou Edgar. — Um pouco depois veio a Giovanna. Ela atravessou aquele mesmo túnel de madeira. Tinha o cabelo preso num coque impecável, usava um vestido discreto, fechado até o pescoço, e carregava a bolsa no antebraço com a rigidez de uma executiva que nunca cometeu um pecado na vida. Mas quando a Patrícia nos apresentou e a Giovanna sentou exatamente aí, onde você está sentado.

— Como a Patrícia reagiu? — Perguntou Otto, com uma curiosidade muito específica e suspeita.

— Quando a Giovanna atravessou a entrada da cafeteria e se aproximou da nossa mesa, a Patrícia não hesitou. Ela fez questão de me cumprimentar executando o nosso ritual ali mesmo, sem se importar com quem estivesse olhando. A Patrícia se inclinou e beijou as costas da minha mão. Foi um beijo suave, lento, carregado de uma submissão tão profunda que parecia uma oração. E a Giovanna viu. 

Otto inclinou-se ligeiramente, captando o impacto da cena.

— Qual foi a reação dela?

— A Giovanna estancou por meio segundo. Eu vi o choque e a fascinação brilharem nos olhos dela. A Giovanna era uma mulher culta, casada, com a vida toda emoldurada pela moralidade. Ver uma mulher exuberante, dona de si e forte como a Patrícia se curvar daquele jeito diante de mim provocou um curto-circuito na cabeça dela. Ela sabia quem eu era. Sabia a minha voz, o meu tom de comando, a largura dos meus ombros. Tinha visto as fotos no grupo. 

Edgar inclinou-se para a frente.

— Aí veio o golpe. Eu estendi a mão para cumprimentar a Giovanna oficialmente. Peguei a mão dela e beijei seus dedos com uma lentidão predatória, sem desviar os olhos do rosto dela. E então, tomado por aquele transe, o inesperado aconteceu: a Giovanna se inclinou e beijou a minha mão de volta. Ela devolveu o gesto de submissão da Patrícia sem entender muito bem o contrato que estava assinando ali. A Patrícia riu, achando graça da ‘inocência’ da amiga, deliciando-se por estar exibindo o seu ‘Dono’. Mas a Giovanna sabia. Ela sabia que tinha acabado de entregar a própria sanidade na minha mão. 

Edgar fez uma pausa longa. O som da máquina de espresso ao fundo interrompeu a catarse.

— A Giovanna tentou disfarçar a entrega. Disse, com a voz trêmula: ‘Então você é o famoso Edgar… A Patrícia me contou sobre suas preferências. Parece que você é um homem de habiliddes e gostos peculiaridades’. Ela estava me provocando, me testando. E eu respondi apenas com o silêncio e com um olhar tão faminto, tão cru, que a fez engolir em seco e baixar a cabeça, incapaz de continuar o teatro.

Edgar deu um suspiro seco.

— E a Patrícia dava o show dela. Passava a mão em minha perna, me dava beijinhos no rosto, contava piadas de duplo sentido, esfregando na cara da Giovanna que aquele ‘animal’ pertencia a ela. A Patrícia dizia: “A Giovanna é certinha demais, Edgar, o marido dela é um burocrata chato que a noite  vira pro lado e dorme, ela precisa aprender a viver!”. A Patrícia achava que estava me dominando ao exibir o predador para a amiga certinha. Mal sabia a boba que, debaixo daquela mesa, a energia entre mim e a Giovanna era tão violenta que parecia que o ar ia pegar fogo. Eu não disse dez palavras a manhã inteira. Eu só olhava para a Giovanna. E ela sabia que, a partir daquele segundo, a vida certinha dela estava condenada.

Otto sentiu a pele da nuca gelar. Não havia nada de aleatório naquela rotina, era uma engrenagem fria e calculada. 

— E o que aconteceu depois? — perguntou Otto, a voz cortante, querendo a confirmação do diagnóstico que acabara de fazer em silêncio.

— O celular dela vibrou sobre a mesa às dez e quarenta e seis — respondeu Edgar, com a voz embargada. — A Giovanna olhou para a tela e a pouca cor que restava no rosto dela sumiu. ‘Meu marido está chegando’, ela murmurou, e a palavra ‘marido’ caiu sobre a mesa como um balde de água gelada. Ela se levantou com uma pressa desajeitada, trocando o fogo daquela mesa pelas cinzas do casamento dela lá fora. 

— E a Patrícia?

— A Patrícia olhou para o relógio e deu uma risadinha debochada e disse: ‘Nossos encontros normalmente duram horas, Gi, e hoje… apenas quarenta e sete minutos’. E assim que a Giovanna cruzou a porta de vidro, a Patrícia se encostou no meu ouvido e sussurrou: ‘Ela está louca de tesao, meu Dom. Eu sabia que ela não resistiria’. 

Edgar encostou as costas na cadeira. 

Em pensamento, Otto reexaminou cada gesto de Edgar: a chegada pontual às 10:00, a escolha obstinada daquela mesma mesa, o palito girando no fundo da xícara e, acima de tudo, a fuga mecânica e britânica às 10:47. O mistério do relógio estava desvendado. Edgar voltava àquele lugar para tentar segurar a mulher que evaporou às 10:47, revivendo repetidamente os quarenta e sete minutos mais marcantes de sua vida.

— Foi ali que o veneno entrou — concluiu Edgar, trancando o maxilar. — A Patrícia achou que tinha feito uma demonstração de poder para a amiga. Mas naquela terça-feira , quando a Giovanna foi embora, ela levou a minha sanidade junto.