O Inconsciente do Autômato
“Toda neurose de repetição é o fantasma de uma dor que se recusa a virar passado.”
— André Green
(Adaptado de “O Trabalho de Luto”, 1983)
A pergunta acertou Edgar como um soco, pegando-o totalmente desarmado no único ponto que ele passava os dias tentando blindar. Seus dedos travaram no palito de madeira. Ele se perguntava por que raios um psicanalista tinha se aproximado dele? A máscara de publicitário foda trincou de completamente na frente do analista. O olhar de Edgar voltou-se para Otto com uma intensidade violenta e um cansaço que beirava a loucura. O ar dentro daquele canto climatizado pareceu sumir de repente, virando uma estufa sufocante. Edgar respirou fundo, os dentes cravados de leve no lábio inferior, e soltou a confissão de maneira muito visceral, a voz descendo para um confessional e sujo.
— Eu não durmo bem há meses. Toda vez que eu fecho os olhos, eu sou puxado de volta com uma violência absurda. Não é um sonho bobo nem pesadelo; é um impacto, um susto desgraçado que me desperta no meio da madrugada com o coração batendo na garganta. E, na sequência, algumas memórias que me jogam direto para dias que não deveriam mais me assombrar. Eu deito, mas minha mente se recusa a sair daquele lugar.
No trabalho eu sou um fantasma. Clico nas ferramentas de design, atendo clientes, direciono a equipe, assino contratos como se aquela porra toda tivesse algum valor. Mas a verdade é que a minha cabeça tá num plano paralelo, rodando num vazio desgraçado. Eu viciei no controle que tinha sobre aquela mulher, na forma como ela se entregava. Nos tapas, nos fetiches, nas mordaças, em tudo aquilo que acontecia quando a gente fechava a porta e o resto do mundo deixava de existir. Eu dizia que era controle. Talvez fosse. Mas também era o único momento em que eu deixava de ser esse publicitário de plástico para ser algo real para alguém.
E depois que ela sumiu… o mundo real virou um teatro de sombras sem cor. Sinto falta do peso dela nos meus braços quando o jogo acabava e ela voltava a ser apenas a minha garota.
Otto ouviu a confissão sem piscar, absorvendo o peso de um luto que parecia ter drenado até a última gota de vida daquele homem. Havia ali uma melancolia funda, sufocante, uma dor visceral que não cabia nas explicações limpas dos manuais de psicanálise.
Otto percebia que, para Edgar, o fetiche, os tapas e a dominação não eram sadismo gratuito, mas um enquadre absoluto, um santuário necessário onde a intimidade e a entrega podiam existir sem a hipocrisia do mundo lá fora. O publicitário não era um carrasco; era um devoto que precisava da dor para sentir a transcendência. O que a moralidade comum chamaria de abuso, Otto via como um contrato desesperado de pertencimento.
O detalhe mais perturbador daquela cena, porém, era a total cegueira de Edgar para a própria mecânica corporal. Enquanto falava sobre o fim de tudo, a mão direita do publicitário recomeçara, de forma puramente autômata, a girar o palito de madeira dentro da xícara fria. Ele executava a mesma dança mecânica, na mesma mesa, no mesmo segundo, todas as terças-feiras. Era o mesmo movimento que o próprio Otto fazia com a caneta no consultório toda vez que um paciente tocava no ponto mais doloroso do trauma. Um jeito inconsciente e visceral de tentar travar o tempo antes que a realidade desabasse de vez.
— O problema, Edgar — disse Otto, a voz baixando para um tom calmo — é que, olhando de fora, me parece que existe uma repetição mecânica acontecendo aqui.
Otto fez uma pausa curta, deixando o silêncio trabalhar antes de lançar a fisgada:
— A mente, quando é atropelada por uma perda muito grande, costuma criar pequenas ancoragens. Não sei… me parece suspeito você escolher exatamente esta mesa, às dez em ponto de toda terça-feira, para girar esse palito sem açúcar até as dez e quarenta e sete. Talvez o seu inconsciente esteja tentando reencenar essa cena esperando que, em algum desses ciclos, o final seja diferente. É como se esse ritual no café fosse a sua tentativa de travar o relógio antes que a realidade desabe… ou talvez seja só o jeito que você encontrou para não deixar os cacos da sua sanidade irem ao chão.
Edgar ergueu os olhos devagar. O tom analítico de Otto e a precisão com que aquele estranho decifrava a sua arquitetura interna geraram nele um incômodo violento, misturado a uma urgência quase infantil de buscar uma resposta.
— E como se interrompe esse retorno, doutor? — disparou Edgar, a voz saindo com uma urgência que ele não conseguiu esconder. — Como é que eu saio desse caralho de looping que você diz que estou?
Otto não respondeu. Em vez de entregar uma resposta pronta ou um consolo barato, o psicanalista ergueu o pulso esquerdo e olhou o visor do relógio de prata fosca: 10:46.
Em vez de responder, o psicanalista começou a recolher seus papéis e a fechar a pasta de couro com movimentos lentos, intencionais. Ele não ofereceu consolo, não entregou fórmulas e não respondeu como interromper aquele retorno doentio. Otto optou pelo silêncio por um motivo muito mais frio e calculista: ele queria testar o sintoma. Depois de semanas observando Edgar do outro lado do salão, o analista sabia perfeitamente que, não importava o que acontecesse no mundo, o publicitário se levantaria daquela mesa às 10:47 em ponto. Era a mecânica perfeita e assustadora de uma compulsão à repetição.
Otto permaneceu calado para ver com os próprios olhos se a força daquele desabafo seria capaz de quebrar aquele relógio invisível, ou se a compulsão falaria mais alto. Ele assistia àquilo com um fascínio quase poético, admirando do fundo da sua alma a precisão matemática com que o inconsciente daquele homem o governava.
O silêncio pesava. Edgar permaneceu ali, encarando o psicanalista com os olhos injetados, o peito subindo e descendo numa respiração curta, esperando desesperadamente por qualquer sinal. Mas o tempo corria. A falta de resposta gerou em Edgar uma inquietação física violenta, um incômodo que começou na boca do estômago e subiu pelo pescoço, travando o seu maxilar. Ele apertou os punhos sobre a madeira da mesa e sentiu o corpo inteiro tremer com a urgência de fugir daquele vácuo. Havia uma luta invisível acontecendo sob a sua pele: de um lado, a fúria por ter sido deixado no vácuo; do outro, a força esmagadora da sua própria neurose, que o empurrava para o segundo exato de ir embora.
Quando o relógio da parede marcou 10:47, a compulsão venceu sem pedir licença. O corpo de Edgar reagiu sozinho, acionado por um gatilho mecânico que ele não dominava.
Ele empurrou a cadeira para trás num movimento brusco, rasgando a tranquilidade da cafeteria com o som estridente da madeira contra o piso. Levantou-se apressado, ajeitando a roupa com as mãos trêmulas e encarando Otto de cima com um misto de raiva, frustração e uma dependência doentia que acabara de surgir ali.
Obrigado pela companhia, eu preciso ir — Disse Edgar, com voz calma e serena.
Otto levantou-se logo em seguida com uma elegância calma. Ele havia assistido ao espetáculo cru da repetição se desdobrar na sua frente, cravado no segundo previsto. A admiração pela força esmagadora daquele sintoma vibrava discretamente por trás de suas lentes.
— Obrigado pelo café, Edgar — respondeu o psicanalista, a voz mansa. —, mas a sua companhia foi o que realmente fez toda a diferença nesta manhã.
Sem esperar por mais nada, Edgar girou sobre os calcanhares. Ele caminhou a passos largos e irritados em direção à saída, atravessando o túnel de madeira e deixando a névoa de sua própria confissão para trás.
Ao cruzar a porta da cafeteria um choque de realidade o atingiu. Ele precisava voltar para a agência, tinha prazos a cumprir. Uma vida funcional que cobrava seu preço. Mas, enquanto caminhava em direção à agencia, Edgar carregava no peito uma sensação de vácuo violenta. A raiva de ter sido ignorado, largado completamente no vácuo por um homem que simplesmente se recusou a dar uma resposta para a sua dor, se misturava a um desassossego doentio. Ele percebeu, lá no fundo, que sua solidão blindada havia acabado. Já não governava mais o próprio silêncio. A partir daquele dia, ele passaria o resto da semana alimentando uma ansiedade corrosiva, contando os dias e esperando desesperadamente pelo próximo encontro com aquele homem que acabara de invadir o seu inferno particular.
Lá dentro, Otto sentou-se novamente na cadeira. Ele acompanhou com o olhar a silhueta de Edgar caminhando pela calçada, exatamente às 10:47 em ponto. O psicanalista olhou para a xícara abandonada com aquele resto de café esfriando no fundo da porcelana, e sentiu um arrepio discreto subir pela espinha. O enquadre estava definitivamente destruído. E o abismo daquele homem já tinha começado a engoli-lo.